domingo, 17 de setembro de 2017

A origem da “Casa do Anjo” em Ingelheim

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Carlos Magno, tendo notado a excelente disposição do terreno de Ingelheim, fez transplantar para ali as cepas do melhor vinho de Orléans. A vinha ganhou o cêntuplo com o transplante.

Foi uma grande alegria para o Imperador, tê-lo tão bem conseguido, tanto que, depois de Aix-la-Chapelle, sua residência preferida era Ingelheim, ou Casa do Anjo. É muito curiosa a origem do nome poético e celeste com que foi batizado o castelo.

Pelo ano de 768, Carlos Magno decidiu construir um palácio que dominasse o Reno, e em 774 ele já estava edificado. Era um prédio magnífico, metade fortaleza, metade palácio, sustentado por cinqüenta colunas de mármore e cinqüenta de granito.

As de mármore foram-lhe enviadas de Roma e de Ravena pelo Papa Estêvão III, e as de granito foram extraídas do Adenwald. Assim, vendo sua nova morada imperial tão felizmente concluída, determinou ali reunir uma dieta. Em conseqüência, os príncipes e senhores dos arredores foram convocados para aquela grande solenidade.

Quando o Imperador acabara de adormecer, na noite que precedeu o dia em que a dieta devia se realizar, um anjo lhe apareceu e disse: “Carlos, levanta-te e rouba”. Carlos Magno logo acordou, e sentiu um celeste perfume no seu quarto. Mas, como as palavras que o anjo lhe dissera não pareciam concordar com os Mandamentos de Deus e da Igreja, pensou ter tido um sonho, e tornou a dormir.

Mal havia fechado os olhos, a mesma visão apareceu-lhe de novo. Com semblante severo como o de um mensageiro que tem o direito de se surpreender de não ser obedecido, o anjo repetiu com voz severa as palavras que já tinha dito, e que o Imperador julgara ter ouvido mal.

Ele abriu em seguida os olhos e viu o aposento cheio de uma luz celestial, que foi se extinguindo pouco a pouco, e finalmente desapareceu por completo.

Entretanto, a ordem era tão estranha que Carlos Magno hesitou ainda em obedecer. Repousando a cabeça sobre o travesseiro, tornou a adormecer uma terceira vez.

Ainda desta vez o mesmo anjo lhe apareceu, mas com fisionomia tão ameaçadora, e reiterou a mesma ordem com voz tão imperiosa, que o Imperador — que entretanto não era nada fácil de atemorizar — estremeceu de medo e acordou sobressaltado.

Desta vez, não somente o mesmo aroma celeste estava difundido e a mesma luz refulgente brilhava, mas ainda o anjo estava de pé junto ao seu leito. Somente quando teve certeza de que o Imperador não poderia mais duvidar da realidade da sua presença, estendeu suas asas de ouro e desapareceu.

Então Carlos Magno não teve mais dúvida de que a ordem vinha do Céu, pois o mensageiro era demasiadamente belo para ser um enviado do inferno.

Carlos Magno não hesitou mais. Imediatamente levantou-se e vestiu-se às apalpadelas, deplorando um mandamento do Céu que lhe ordenava começar tão tarde uma ação tão infame. Mas o Imperador estava, como Abraão, decidido a tudo sacrificar por Deus, inclusive sua honra. Vestiu sua couraça, cingiu a espada e tomou seu elmo à mão, como se fosse comandar uma daquelas expedições guerreiras, pelas quais tinha tanta simpatia quanto por esta tinha repugnância.

Enfim saiu de seu quarto, e detendo-se numa galeria da qual podia-se divisar toda a região, fez uma pausa para decidir por que lado iria cometer esse roubo tão embaraçante de executar.

A noite era sombria, como convinha a semelhante expedição. Mas, por sugestiva que fosse a escuridão, o Imperador era completamente alheio à nova arte que deveria exercer. Se bem que andasse de um lado a outro por cerca de uma hora, não lhe havia ocorrido a menor idéia.

De repente percebeu que lhe tinham roubado o elmo, que deixara sobre a balaustrada da galeria. O Imperador procurou por todos os lados, olhou dentro e fora, mas toda a busca foi inútil: o elmo tinha desaparecido.

O roubo era tanto mais ousado quanto o ladrão era hábil. E se o ladrão era hábil, em tais circunstâncias poderia dar um bom conselho ao Imperador. Assim, pareceu-lhe que esse era um novo favor do Céu, que, vendo seu embaraço, tinha tido pena dele. Em conseqüência, elevando a voz, exclamou:

— Aquele que roubou meu elmo apresente-se diante de mim, e por minha palavra real, em vez de ser punido, receberá uma recompensa de cem ducados.

Ato contínuo uma risada aguda reboou na galeria, e debaixo da tapeçaria que cobria uma mesa Carlos Magno viu sair o seu anão, que se aproximou dele e estendeu-lhe o elmo para que nele jogasse a soma prometida.

— Ah! És tu o infame ladrão — disse Carlos Magno. — Deveria ter suspeitado que só tu serias capaz de aplicar um tal golpe, e deveria ordenar que te dessem cem varadas, em vez de prometer cem ducados tão imprudentemente como o fiz.

— Sim, meu Senhor — disse o anão. — Teria sido mais econômico, é verdade, mas um nobre tem apenas uma palavra. Eis vosso elmo. Onde estão os cem ducados?

— Tu os terás em seguida, depois de me teres dado um bom conselho.

— Os cem ducados foram prometidos pelo elmo, e não pelo conselho. Dai-me os cem ducados pelo elmo, e tereis o conselho grátis.

Carlos Magno estendeu a mão, para agarrar o patife que lhe falava com tanta impertinência, mas o anão viu o movimento e saltou rápido sobre a balaustrada, pôs-se a galgar uma das colunas e só parou quando estava sobre uma das folhas do capitel. Pôs-se a cantar uma canção, da qual compunha ao mesmo tempo a música e as palavras:

— Tenho já um elmo, um belo elmo, um elmo encimado por uma coroa real, um elmo que me custa cem ducados. E tratarei de ter pelo mesmo preço uma couraça e uma espada, e então me farei armar cavaleiro por algum imperador que não tenha jamais faltado à sua palavra. Depois, quando for armado cavaleiro, quando eu tiver uma grande espada e uma boa lâmina, irei por vales e montes, fazendo justiça, porque nos feudos da Germânia e da França muita justiça precisa ser feita. Mas — ai de mim! — onde encontrarei, para me armar cavaleiro, um rei que jamais tenha faltado à sua palavra?

O barulho de uma bolsa que caía nas lajes interrompeu a improvisação do cantor. O anão compreendeu que sua canção havia produzido efeito, desceu da cornija e foi apanhar a bolsa, com um olho sobre ela e outro sobre o Imperador.

— Vamos, vem cá, patife, e não temas nada — disse Carlos Magno. — Tenho necessidade de ti.

— Oh! Então, se tendes necessidade de mim, é outra coisa, e não tenho mais medo.

— Eu estou precisando de roubar.

— Péssima profissão, sobretudo porque se trata de pessoas que prometem e não mantêm a palavra. Assim — podeis crer-me, — uma vez que tendes a desventura de ter nascido honesto, é melhor permanecer honesto.

— Eu te digo que quero roubar — disse Carlos Magno num tom que indicava estar começando a cansar-se das reflexões filosóficas de seu interlocutor.

— Bem, se é uma vocação decidida, então não há mais nada a acrescentar. Que quereis roubar?

— Eis o que eu não sei. Mas quero roubar alguém, e logo, nesta noite.

— Raios! Está bem, roubemos.

— Mas a quem vamos roubar?

— Vejamos... Estais vendo aquela pobre cabana?

— Sim.

— Há ali um bom golpe a dar. Por mais pobre que pareça, o dono dela hoje tem cem florins. Há cerca de dez anos aquele camponês trabalha todos os dias, de cinco horas da madrugada até às oito horas da noite, e conseguiu guardar todo esse dinheiro. A porta fecha mal e o bom homem tem o sono pesado, por isso é fácil roubá-lo.

— Miserável! Queres que eu vá pegar de um infeliz o fruto de dez anos de trabalho, um dinheiro ganho com o suor de seu rosto!

— Eu não quero nada. Vós é que me pedistes um conselho, e eu o dou. É só isso.

— Vamos a outra coisa, então.

— Vedes aquela casa de campo?

— Sim, vejo.

— Pertence a um rico comerciante. Nela não achareis florins, mas ducados; e não às centenas, mas aos milhares.

— Sem dúvida foi com pesos adulterados e com usura que ele adquiriu tal fortuna.

— Não. Pelo contrário, foi fazendo cálculos de tal maneira exatos, para si como para os outros, que sua probidade tornou-se proverbial. A probidade trouxe a ele o que a velhacaria traz a outros.

— E queres então que eu arruíne um homem que possui fortuna tão honrada?

— Eu não quero nada. Sois vós, ao contrário, que desejais roubar. Digo-vos somente quem são os que têm dinheiro.

— Sim, sem dúvida quero roubar, mas não ao pobre lavrador, não ao comerciante esforçado e honesto. Quereria roubar a algum desses maus cavaleiros, que vivem de pilhagem e rapinas, que traem aqueles que deveriam servir, e que oprimem aqueles que deveriam defender.

— Ah! Então é outra coisa! Por que não vos explicastes logo? Tenho então a solução. Aquele castelo pertence ao senhor Harderic, o maior bandido que a Terra tenha produzido depois do falso profeta Maomé.

— Tanto melhor!

— Mas não será coisa fácil. Ele tem o sono leve e a mão pesada. Haverá golpes a dar.

— Tanto melhor! Tanto melhor!

— Então ide colocar outra couraça, escura como a noite na qual é preciso que nos esgueiremos. Pegai um punhal curto, em lugar dessa longa espada. A espada é uma arma diurna, para ferir de longe. À noite só se golpeia o que se toca. Tem-se os olhos nas mãos, e é preciso que os olhos não estejam demasiado longe da lâmina. Ide e voltai, eu vos espero aqui, contando os ducados.

O Imperador não precisou ouvir duas vezes. Foi e voltou coberto de uma cota de malhas de aço opaco, que lhe cobria o corpo como um gibão e envolvia a cabeça como um capuz.

Levava na cintura um punhal largo, curto e cortante como o gládio romano. O anão examinou-o dos pés à cabeça, fez um sinal de aprovação e os dois saíram do palácio. Pelo caminho mais direto, ou seja, através do campo, avançaram rumo ao castelo de Harderic.

Chegados à porta do castelo, o anão fez um sinal a Carlos Magno para ficar o mais perto possível da porta. Lançando-se sobre uma figueira que crescia no fosso, e da figueira agarrando-se à muralha, galgou-a, enfiando sucessivamente as mãos e os pés nos interstícios das pedras, até chegar às ameias, e desapareceu.

Um instante depois Carlos Magno ouviu ranger a chave na fechadura. A porta mexeu-se pesadamente, mas sem fazer ruído, depois entreabriu-se o necessário para deixar passar um homem. Carlos Magno passou, o anão empurrou a porta com as mesmas precauções que tomara para abri-la, e assim encontraram-se no pátio do castelo.

— Eis o vosso caminho — disse o anão, mostrando a escada que conduzia aos apartamentos do castelo; e mostrando a cavalariça, acrescentou: — e aqui está o meu.

— Por que não vens comigo?

— Porque tenho também um golpe a dar.

Pondo-se a correr de quatro, como um cachorro, para não ser reconhecido como criatura humana no caso de ser visto, atravessou o pátio e entrou na cavalariça. Carlos Magno subiu a escada o mais silenciosamente que pôde, e entrou nos apartamentos.

Graças a um raio de luar, que apareceu no céu naquele momento, conseguiu chegar ao quarto que precedia aquele onde Harderic e sua esposa dormiam. Aí estendeu a mão, para ver se achava algo para pegar, e tocou num cofre fechado sobre a mesa, que imaginou conter dinheiro ou jóias. Nesse momento o cavalo do castelão relinchou tão fortemente que Carlos Magno estremeceu.

— Heim! — esclamou Harderic, acordando em sobressalto. — Que se passa na minha cavalariça?

— Nada — respondeu a esposa. — É teu cavalo que relincha.

— Meu cavalo não costuma relinchar assim, a não ser quando alguém que ele não conhece tenta desatá-lo.

— E quem pensas que tenta desatar teu cavalo?

— Um ladrão, ora essa!

Harderic desceu do leito e pegou a espada. Carlos Magno então recuou, escondendo-se e mantendo a mão na empunhadura da arma, e viu Harderic passar. Ao cabo de um momento o castelão voltou.

— O que havia na cavalariça? — perguntou-lhe a mulher.

— Nada. Mas há três ou quatro noites não consigo dormir.

— Não consegues dormir porque certamente planejas alguma coisa.

— É verdade.

— E o que planejas?

— Posso te dizer agora, pois o momento de nosso projeto cumprir-se já praticamente chegou. Amanhã, eu e onze outros condes, barões e senhores deveremos matar o Rei Carlos, que nos impede sermos senhores em nossas terras. Estamos fartos disso, e não queremos mais suportá-lo.

— Oh! meu Deus, meu Deus! E se vosso complô fracassar? Estareis todos perdidos.

— Impossível. Estamos ligados entre nós pelos juramentos mais terríveis. Amanhã, convocados para a Dieta como todos os outros, entraremos no palácio sem despertar nenhuma suspeita. Estaremos bem armados, mas ele não estará. Cercaremos seu trono e o mataremos.

— E quem são os conjurados?

— Isso é o que não posso dizer nem a ti. Mas o engajamento deles já está assinado com sangue, e fechado no cofre que está aí ao lado.

— Deus queira que tudo isso termine bem.

O castelão voltou a dormir. Durante algum tempo ainda se ouviram os suspiros da castelã, mas logo depois sua respiração suave confundiu-se com os roncos do seu marido.

Então Carlos Magno tomou o cofre, colocou-o debaixo do braço, atravessou os apartamentos, desceu a escada e chegou ao pátio. Lá viu o anão, que se debatia sobre o cavalo de guerra do castelão.

O Imperador saltou sobre o cavalo, que logo compreendeu tratar-se de cavaleiro experiente, e tornou-se dócil como um cordeiro. Carlos colocou o anão na garupa e partiu a galope.

Chegando ao castelo, Carlos Magno abriu o cofre que tinha roubado, e nele achou os compromissos dos doze conjurados, assinados com sangue.

Fez acordar sua gente, e mandou que levantassem, num dos pátios do palácio, onze forcas de tamanho comum e uma mais alta que as outras.

Em cima de cada uma das doze forcas, fez pregar um rótulo com o nome de cada conjurado, e sobre a forca mais alta o nome do chefe deles, Harderic.

Depois, como havia duas entradas no palácio, ordenou receberem todos os outros barões convocados por uma outra porta e em outro pátio, e receberem os conjurados pela porta e no pátio das forcas.

As instruções foram rigorosamente seguidas. Quando viu todos os barões reunidos, Carlos Magno narrou-lhes o complô tramado contra ele, mostrou-lhes o compromisso assinado com sangue dos doze conjurados, e perguntou-lhes que pena mereciam.

Todos, a uma voz, disseram que mereciam a morte. Então Carlos Magno fez abrir as janelas que davam para o segundo pátio, e os barões viram os doze conjurados suspensos nos doze postes.

Em memória da aparição celeste à qual devia a vida, Carlos Magno chamou o palácio de Ingelheim, ou Casa do Anjo.



(Fonte : Alexandre Dumas, « Excursions sur les bords du Rhin – Impressions de voyage » – Calmann-Lévy, Paris)


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domingo, 3 de setembro de 2017

O briguento e sua sombra

Doidos briguentos, capela de La Manta, 1420
Doidos briguentos, capela de La Manta, 1420
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Fala para mim se há algo mais pesado que a areia, que o chumbo ou que a massa de ferro.

Sim há. Sabes o que é?

É o homem briguento.

Esse é o pecado mais fátuo, doido e grave que se possa cometer.

E quem fica nele, enquanto não sai desse pecado, não pode se salvar.

Ó briguento, tu és semelhante ao frenético que não respeita ninguém. Esse mataria seu pai, sua mãe e seus irmãos do mesmo jeito que sacrificaria um animal.

E como eu sei disso, posso falar aqui ousadamente e com verdade.

Eu já estive num local em que os próprios religiosos se atacaram para matar uns aos outros.

Vós não percebeis que procedeis pior que os lobos e que os cachorros?

Quereis ver como eu digo a verdade?

Vós podeis vê-la na vossa experiência.

O cão não come a carne de outro cão, tampouco o lobo come a carne de outro lobo, nem mesmo o leão come outro leão, e assim fazem todos os animais.

O briguento age de tal maneira mal que se o irmão, o filinho ou o pai estão contra ele, ele se engenharia para assassiná-los.

Queres ver? Eu quero te contar um exemplo, ó briguento, e tal vez com ele vais pensar melhor.

Houve um louco que caminhava rumo ao oeste e levava uma longa marreta na mão, enquanto que o sol lhe batia nas costas e projetava sua sombra diante dele.

Assim que ele percebeu essa sombra, lhe pareceu que fosse um outro que andava com um bengala na mão como tinha ele.

Então saiu correndo atrás desse outro para lhe dar uma marretada. Porém, a sombra corria do mesmo jeito que ele.

E após ter corrido uma boa distância sem conseguir alcançá-la, ele parou de esgotamento.

Cena de uma revolta camponesa, Jean Froissart  (1337-1405)
Cena de uma revolta camponesa, Jean Froissart  (1337-1405)
Depois se pôs novamente em pé e recomeçou a correr para atingir sua sombra. Até que enfim após correr mais um tanto, chegou a uma curva onde a sombra ficou de lado.

Foi atrás dela até encontrar uma grande pedra onde a sombra tinha ficado ereta e fixa.

Assim que a viu parada com uma bengalona na mão ele foi por cima dela e se assanhou tanto contra sua sombra que acabou se dando uma pancada e rompeu a própria cabeça.

Assim fazem os que brigam. Doidinhos, que por pura insânia quebram sua cabeça e a de todos que estão perto deles!

Ah! Se eu fosse o imperador! Mas me falta o cetro de mando.

Eu os deixaria sem comer. Sim, até que eles abandonem esse pecado. Porque do contrário não se reconciliam jamais e morrem desesperados.

Então, caro briguento. Não queiras te desesperar. Arrepende-te e faz o que eu te ensino.


(Autor: São Bernardino de Siena, “Apologhi e Novellette”, Intratext)



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domingo, 20 de agosto de 2017

As três moças de São Nizier

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Em Vercors, nos Alpes franceses, subindo ainda mais alto pelo lado da Torre Sans-Venin, hás três rochedos verticais que parecem estátuas e sobressaem na montanha.

Todos os habitantes de Grenoble conhecem esses três rochedos míticos que surgem altaneiros entre os picos de Vercors. Os alpinistas vencem muitos desafios quando conseguem escalá-los.

Eles são conhecidos como “as três moças de São Nizier”. Sabeis qual é a origem de seu nome tão curioso? Pois  Eis o que aconteceu:

Três moças muito belas e sobre tudo muito vaidosas viviam numa aldeia de Vercors.

Os seus costumes coquetes deixavam surpresos os habitantes do local que tinham muitas dificuldades para sobreviver cultivando aquela terra árida no verão e fria no inverno.

Num verão, enquanto todo mundo trabalhava duro nos campos, as três senhoritas passeavam pelas pradarias.

As "três moças de Saint Nizier"
‒ Oh!, exclamou uma delas, olhem! Com essas flores eu arranjarei um lindo vaso!

‒ Ah! com elas eu faria uma coroa para meus cabelos, disse uma outra.

‒ Olha! o vendedor ambulante de panos está vindo ai!

‒ Ah ! Sim, sim ! Vamos ver quais são as novas cores no seu carrinho!

E partiram com inteira despreocupação sem pensar nos perigos que poderiam acontecer.

Após terem descido a ladeira encontraram três malandros que as aguardavam. Eles avançavam gritando obscenidades irreproduzíveis.

‒ “Socorro! Ajuda!” gritou uma.

‒ “Fujamos logo”, disse outra.

‒ “Ah! se eu tivesse sabido...”, acrescentou a terceira.

As três vaidosas compreenderam tarde seu erro. E saíram correndo em direção da aldeia que ficava muito longe.

São Nizier.
São Nizier.
Mas as roupas prendiam nas pedras e os bandidos se aproximavam espertos, agressivos e velozes.

Percebendo que estavam perdidas, as três lembraram de invocar o Santo da paróquia.

São Nizier sempre foi muito solícito com seus devotos. Lá, do Céu estava vendo a cena e decidiu dar uma lição exemplar às três moças e que valesse para todas as coquetes que andam pelo mundo.

Todas elas ficariam sabendo que a despreocupação da descocada tem graves consequências.

São Nizier, em lugar de castigar os vagabundos, decidiu transformar as três moças em rochedos.

Os criminosos ficaram sem o que queriam.

As moças foram salvas.

Mas ficaram para sempre lá petrificadas lembrando às moças do vale para serem sérias, prudentes, laboriosas, e obedientes aos pais.




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domingo, 6 de agosto de 2017

São Bernardo fez o demônio servir de roda

São Bernardo de Claraval. Heiligenkreuz, Áustria
Luis Dufaur
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São Bernardo voltou certa vez à sua aldeia natal – Fontaine, perto de Dijon – para encontrar junto à lagoa de sua infância toda a calma e toda a força de que necessitava.

Com efeito, através de sua eloquência e da força de convicção de sua fé, ele deveria arrastar para a segunda Cruzada tudo quanto na Europa havia de melhor na nobreza e nas classes populares de boa vontade.

Por isso ele precisava de um momento de contemplação e repouso em sua terra natal.

Tanto mais quanto havia tempo que inquietações e dúvidas o assaltavam e atormentavam, dando a impressão de que uma diabólica mão pesava-lhe sobre as costas, queimando-a.

Uma voz lhe murmurava palavras desencorajadoras e anunciava que seu projeto iria fracassar.

Imagens ora tentadoras, ora aterrorizantes desfilavam diante de seus olhos.

São Bernardo lutava contra o demônio com todo o poder da oração, sendo nisso ajudado pela tranquilizadora paisagem de seus jovens anos.

A serenidade voltou e ele decidiu se reunir com o já numeroso magote de companheiros de fé e de combate, com os quis pegou a estrada de Vézélay.

Os caminhos naqueles tempos eram ruins e difíceis, as viagens lentas e penosas, o perigo acompanhando os viajantes como se fosse parte de sua própria bagagem.

domingo, 23 de julho de 2017

Não cairmos em vergonha (Cantiga 94)

Nossa Senhora da Misericórdia, Sano di Pietro (1405-1481), col. privada.
Luis Dufaur
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Cantiga 94 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María

Esta cantiga fala como Santa Maria ficou servindo no lugar da freira que fugiu do mosteiro.


“A Virgem Maria trata sempre de nos livrar de pecar e de errar”.

E nos protege de pecar, e até quer nos encobrir quando caímos em pecado; depois nos faz arrepender e praticar a emenda dos pecados que cometemos.

Sobre isto, quero mostrar um milagre que numa abadia quis mostrar a Santa Rainha sem par que nos guia.

Havia lá uma freira que, segundo fiquei sabendo, era uma jovem formosa e, além do mais, sabia guardar a regra da Ordem, e nenhuma outra era tão diligente em aproveitar tudo o que tinham, e por isso lhe deram a tesouraria.

Mas o demônio, ao qual aquilo não agradava, a fez apaixonar-se de tal maneira por um cavaleiro, que não lhe dava repouso, até que conseguiu que ela saísse do mosteiro.

domingo, 9 de julho de 2017

O santo ermitão e o servidor que não entendia as pregações

Santo Antônio do Deserto. Burgos, Espanha
Santo Antônio do Deserto. Burgos, Espanha
Luis Dufaur
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Houve um santo ermitão que morava num pobríssima cabana na floresta.

Ele mantinha um pobre servidor que não retinha nada dos ensinamentos que ouvia.

E por isso nunca ia assistir pregação alguma.

Ele contou então ao santo anacoreta a causa pela que nunca ia a missão ou catequese qualquer que fosse:

— “Eu não consigo guardar nada do que ouço”.

Então esse santo ermitão lhe disse:

— “Pega essa panelinha”.

Porque ele tinha uma panelinha para cozinhar o peixe, e lhe disse:

domingo, 25 de junho de 2017

Como São Francisco pregou às aves e fez calar as andorinhas

São Francisco de Assis prega aos passarinhos (detalhe). Ambrogio Bondone, chamado Giotto  (1266-7 – 1337).
São Francisco de Assis prega aos passarinhos (detalhe).
Ambrogio Bondone, chamado Giotto  (1266-7 – 1337).
Luis Dufaur
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O humilde servo de Cristo São Francisco, pouco tempo depois de sua conversão, tendo já reunido e recebido na Ordem muitos companheiros, entrou a pensar muito e ficou em dúvida sobre o que devia fazer, se somente entregar-se à oração, ou bem a pregar algumas vezes.

E sobre isso desejava muito saber a vontade de Deus.

E porque a humildade que tinha não o deixava presumir de si nem de suas orações, pensou de conhecer a vontade divina por meio das orações dos outros.

Pelo que chamou Frei Masseo e disse-lhe assim:

“Vai a Soror Clara e dize-lhe da minha parte que ela com algumas das mais espirituais companheiras rogue devotamente a Deus seja de seu agrado mostrar-me o que mais me convém: se me dedicar à pregação ou somente à oração.

“E depois vai a Frei Silvestre e dize-lhe o mesmo”.

Este fora no século aquele monsior Silvestre, que vira uma cruz de ouro sair da boca de São Francisco, a qual era tão alta que ia até ao céu e tão larga que tocava os extremos do mundo.

Era este Frei Silvestre de tanta devoção e de tanta santidade, que tudo quanto pedia a Deus obtinha e muitas vezes falava com Deus; e por isso São Francisco tinha por ele grande devoção.

Foi Frei Masseo, e conforme a ordem de São Francisco, deu conta da embaixada primeiramente a Santa Clara e depois a Frei Silvestre.

O qual, logo que a recebeu, imediatamente se pôs em oração e, rezando, obteve a resposta divina, e voltou a Frei Masseo e disse-lhe assim:

domingo, 11 de junho de 2017

O boi voador de Saint-Ambroix

O boi chamado Caïet salvou a concórdia geral
Luis Dufaur
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Há muitos séculos – pois esta lenda se perde na noite dos tempos – a colheita de uvas foi fabulosamente abundante, excessiva demais e verdadeiramente incalculável, em Saint-Ambroix (Santo Ambrósio), na região de Gard, França.

Pelo excesso de uva, não havia mais um recipiente livre na cidade. Era impossível guardar adequadamente todo esse vinho.

O que fazer?

A desavença tomou conta dos habitantes cuja única renda era o fruto da terra.

‒ “Se nós não fazemos algo, vamos perder tudo”, disse um deles.

‒ “Sim, é verdade, o vinho vai estragar”, disse outro.

‒ “É culpa de nosso governante”, disse um terceiro, apontando para a casa do prefeito, chamado Roustan.

‒ “Poderemos engolir todo esse vinho até ficarmos bêbados”, grunhiu um maltrapilho deitado num banco.

domingo, 28 de maio de 2017

O lenhador que queria ficar rico sem trabalhar

O tesouro do castelo de Hohenstein
O tesouro do castelo de Hohenstein
Luis Dufaur
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Ficaram umas ruínas do castelo de Hohenstein, na Alemanha.

Elas não dão ideia da grandeza daquela cidadela medieval, e da riqueza de seu senhor.

Uma legenda conta que:

“Há já muito tempo, naquela densa floresta, um lenhador trabalhava duramente perto da cidadela.

“O lenhador, entretanto, acariciava um sonho. Ele até falava em alta voz, quando ninguém o ouvia:

‒ “Que tal ficar rico sem trabalhar? Uma sorte, um inesperado, e a gente acha um tesouro. Ah! Nunca mais trabalhar... que bom!

“O diabo que andava por ali perto pegou a coisa no ar e aprontou uma das dele.

“Quando os últimos raios de sol desapareceram por trás da colina, o lenhador parou seu serviço e pegou o caminho de volta.

“O demônio tinha ali montado uma arapuca. Como de pura sorte o lenhador julgou perceber entre as ruínas do castelo uma curiosa pilha de materiais transparentes e desconhecidos.